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Enfrentando os desafios da desigualdade de gênero no setor tecnológico

As mulheres que atuam na ciência e tecnologia sempre enfrentaram dificuldades causadas pelo machismo presente em nossa sociedade. Ausência de incentivo, diferenças salariais e portas fechadas nos cargos de comando são algumas das injustiças diariamente enfrentadas. As diretoras do SINTPq, Priscila Leal e Filó Santos, trabalham há anos no setor e relatam suas impressões sobre o tema. Confira abaixo seus comentários e experiências.

Priscila Leal – Diretora do SINTPq e trabalhadora do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas)

Quando entrei no curso de geologia da USP, em 1998, éramos 7 meninas para 43 meninos, nesta época esta diferença passava imperceptível para mim, apesar do machismo velado na rotina universitária, com comentários do tipo: "mulher não sabe martelar", "Ela não vai aguentar o peso da marreta", e as frequentes interrupções durante os seminários. Estes temas povoam nossas redes sociais, quadros humorísticos e compõem a pauta de grande parte dos movimentos de equidade de gênero.

Porém, estas questões começaram a ficar anos luz de distância das minhas preocupações quando me deparei com algo invisível, cruel e extremamente extenuante. Um fenômeno que a quadrinista francesa Emma nominou como "carga mental", termo recuperado "das feministas", como ela citou. De que se trata? Trata-se daquilo que todas as mulheres "que tem casa, não mora sozinha e não tem empregada" sentem, como explica o artigo de Ana Clara Ferrari (Opera Mundi, jan, 2019), é aquilo que nos deixam com um cansaço eterno, mau humor e sujeitas à explosões (ou implosões) emocionais. Qual o mecanismo? Segundo o esclarecedor artigo de Nicole Clark publicada na Vice, começa com consumo. Compramos muitas coisas, não importa quanto ganhamos, usamos quase tudo para consumir, acumular coisas, e adivinha quem tem o trabalho de gerenciar tudo isso? As mulheres. Sim, somos nós que sabemos o que comprar no mercado, onde guardar, quando lavar, qual o melhor sabão, quando que é necessária a limpeza da casa. Além de gerenciar as montanhas de roupas e brinquedos da casa, gerenciamos as agendas e a logística. Somos departamento ambulatorial e de amparo psicossocial da casa e também temos um trabalho de 8h/dia, com preocupações com carreira e tudo mais. O companheiro aguarda passivamente as ordens para solicitamente executar uma parte das tarefas e, pronto, o trabalho dele termina aí. E é exatamente aí que a percepção dos homens é de que a mulher "é chata" por ficar o tempo todo lembrando das tarefas, das responsabilidades e dos compromissos. Uma regente! Uma gerente! Ou uma megera?

O fato é que as mulheres estão cansadas, esgotadas e muitas vezes emocionalmente abaladas, como expõe a dissertação de Cristina Yuasa, da Faculdade de Saúde Pública da USP, em seu trabalho de 2012 intitulado: "A depressão feminina no discurso das mulheres". Cristina constatou que parte das mulheres entrevistadas em sua pesquisa atribuem a sobrecarga de responsabilidades como a causa de seu quadro depressivo.

Esta espiral descendente só pode ser freada com a ajuda de toda a sociedade. Engajar-se em movimentos para a equidade e justiça de gênero é também comprometer-se com uma sociedade mais saudável e empática. Nós queremos vivas, fortes e sem medo.

Filó Santos – Diretora do SINTPq e trabalhadora do CPqD (Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações)

Ao longo de décadas, os homens foram protegidos pelo sistema e pelas leis, enquanto nós mulheres sobrevivíamos à opressão, privação e invisibilidade. Sobreviver era nossa forma de resistência, mas isso não diminuía a enorme distância entre os privilégios dos homens e os direitos das mulheres. E as mulheres transformaram essa resistência em luta, se uniram, se organizaram, se fortaleceram e conquistaram espaços e direitos. Mas ainda não ocupamos todos os espaços e direitos que nos pertencem e que nos são devidos.

Faz aproximadamente 34 anos que trabalho no CPqD, e nesses anos todos, foram raríssimas as vezes que o comando de uma área foi entregue a uma mulher.

Quando penso nas múltiplas jornadas das mulheres que são casadas, que são mães, e olho para os homens com quem trabalho, me faço algumas perguntas. Quantos desses homens tem a consciência de dividir a administração da casa, os cuidados diários dos filhos e o trabalho doméstico em igual proporção? Quantas mulheres teriam mais oportunidades, se essa divisão fosse mais justa? Quantas mulheres desistiram de seus sonhos pessoais devido à múltipla jornada? Creio que as respostas não nos são favoráveis.

No atual momento, considerando que o mais alto grau do governo brasileiro está ocupado por um homem que nos retrocede às primeiras décadas, devemos intensificar nossa resistência e luta. Nossa história é evolutiva, não há espaço para retrocessos.

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