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Corte de bolsas deve causar ‘fuga de cérebros’, alerta neurocientista

 "Encontramos hoje doutores com artigos publicados trabalhando como motoristas de Uber" (FOTO: Agência Brasil) "Encontramos hoje doutores com artigos publicados trabalhando como motoristas de Uber" (FOTO: Agência Brasil)

Para o neurocientista Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o impacto dos cortes de bolsas de estudos para pesquisas de pós-graduação é “devastador” para futuro do país. Ele classifica o desmantelamento do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação como um crime de “lesa-pátria” cometido pelo governo Bolsonaro. As consequências serão o abandono de pesquisas importantes e a fuga de “cérebros do país”, que podem representar um atraso de sete décadas de investimentos em pesquisa e inovação.

“Se não tomarmos cuidado, este será um século em que o Brasil vai voltar a ser um grande fazendão, que apenas vende commodities baratas (produtos agrícolas e minerais), cuja produção já está mecanizada. O Brasil é um país que tem tudo para dar certo. Mas se continuar desse jeito, vai ser vendido na xepa”, afirmou o neurocientista em entrevista ao jornalista Glauco Faria, para o Jornal Brasil Atual, nesta quarta-feira (4).

Nesta semana, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) anunciou o 5.613 bolsas cancelamento de bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado. Nos oito meses do governo Bolsonaro, já foram extintas 11.811 bolsas de estudos.

Ribeiro diz não entender a que interesses atendem esses cortes, e lembra que durante a campanha eleitoral, Bolsonaro prometia elevar os investimos em Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI) para o equivalente a 3% do PIB. “O que está ocorrendo é justamente o oposto. A consequência disso é a fuga de cérebros. Muitas pessoas vão embora. Muita vão abandonar a carreira científica. Encontramos hoje doutores com artigos publicados trabalhando como motoristas de Uber.”

Falsa dicotomia

Ele também desmentiu o discurso oficial do governo, que alega que os cortes nas pesquisas e nas universidades se dariam em função do investimento na educação básica. “O governo faz esse discurso, mas nesse ano não houve repasses para a educação integral. Recursos para creches, alfabetização e ensino integral foram reduzidos”, diz o cientista. Ele cita estudo elaborado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) que revela que, mesmo se todo o investimento no ensino superior fosse “zerado”, os gastos na educação básica aumentariam apenas 17%.

“Existe uma grande falácia. É como um pai que tem um filho pequeno que escolhe entre alimentá-lo ou vaciná-lo. São coisas diferentes. Uma com efeito imediato, outra no médio e longo prazo. Ambas são necessárias. A dicotomia entre ensino básico e o superior só existe na cabeça das pessoas que querem reduzir o tamanho da educação pública brasileira. A solução não é tirar dinheiro de uma área da educação para alocar em outra. É parar de pagar juros extorsivos para banqueiros, e começar a investir no povo brasileiro. Se não investirmos, o país vai dar errado.”

Sonhar o futuro

Autor do livro Oráculo da Noite (Companhia das Letras), que relata a perda da centralidade do sonho na sociedade ocidental contemporânea, Ribeiro diz que o abandono dos relatos oníricos está nos levando a uma situação que dificulta a capacidade de simular sobre o futuro. “Os sonhos são oráculos probabilísticos, simulações de como pode ser o amanhã baseado em ontem. Estamos numa civilização extremamente tecnológica que tem dificuldade de imaginar as consequências das decisões tomadas agora. O que vai acontecer com o Brasil quando a Amazônia tiver sido totalmente devastada?”, questiona o neurocientista.

Danos irreversíveis

Cientistas apontam que se a devastação da Amazônia chegar a uma faixa de 25% a 30%, o dano no bioma pode ser irreversível. O quadro é preocupante, com o aumento das queimadas na região, em 2019. Com impactos no clima, a densa floresta tropical se transformaria numa bioma mais parecido com o cerrado brasileiro. Segundo Ribeiro, Algo parecido pode ocorrer com os investimentos científicos no país, que chegariam também a um “ponto de não retorno”.

“Se esses cortes se mantiverem por certo tempo, os danos serão irreversíveis. As pessoas vão abandonar as pesquisas ou abandonar o país. Isso não vai ser recuperado facilmente. O investimento para retomar o ponto em que estamos atualmente vai ter que ser muito maior. Ou a gente interrompe o processo em curso, ou vamos perder pelo menos 70 anos de investimentos em pesquisa e inovação do país.”

por Redação Rede Brasil Atual

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