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Métricas e Indicadores em Ciência e Tecnologia: um Convite à Discussão

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Ros Mari Zenha – Geógrafa, Pesquisadora do IPT e Presidente do Conselho de Representantes dos Empregados – CRE IPT

Como pesquisadora do IPT, o tema das métricas e indicadores para avaliação de desempenho da Instituição e mesmo de seus profissionais sempre me chamou a atenção.

Mesmo não sendo especialista no assunto, incomodava-me bastante a mera transposição de métricas e indicadores utilizados nas universidades para Institutos Públicos de Pesquisa como é o caso do IPT.

O mesmo incômodo eu tinha quando observava que os critérios de avaliação de propostas de projetos junto às agências de fomento, em especial a Fapesp, eram os mesmos em se tratando de realidades tão diferentes.

Ainda que, por vezes, os pesquisadores de Institutos Públicos de Pesquisa tenham destacado a necessidade de se repensar esse tema, muito pouco foram ouvidos.

Agora, com o advento da pandemia da COVID-19 e o protagonismo que a ciência e a tecnologia assumiram perante os órgãos públicos e a sociedade, essa necessária reflexão volta à tona e quem sabe possamos ampliar essa visão, quase que estritamente bibliométrica, das métricas e indicadores.

Minhas reflexões se robusteceram quando tive a oportunidade de participar, de 15 a 18 de junho de 2020, da Webinar: As crises de 2020 e a nova era em construção que inaugurou o 3º. Fórum Desempenho Acadêmico e Comparações Internacionais organizado no âmbito do projeto Indicadores de Desempenho nas Universidades Paulistas vinculado ao Programa Fapesp da Pesquisa em Políticas Públicas.

O Programa contou com temas muito interessantes: (1) As crises de 2020 e a nova era em construção; (2) As áreas do conhecimento e suas métricas frente ao distanciamento social; (3) A comunicação social das universidades; (4) A transição do presencial para o digital frente à crise sanitária; (5) A gestão dos indicadores na universidade: depoimentos e (6) O novo protagonismo da ciência.

Tomarei a liberdade de me ater ao tema das métricas e indicadores e resgatar o conteúdo das apresentações, com acréscimos pessoais fruto de minhas reflexões.

Métricas e indicadores de desempenho já se consolidaram como pontos importantes no aprimoramento da governança das instituições e na avaliação de seus profissionais.

No entanto, as crises surgidas em 2020 trazem novos elementos e tornam urgente renovar os debates.

A percepção pública sobre a ciência e a tecnologia mudou durante a pandemia da COVID-19.

A sociedade percebeu que precisa das universidades e dos institutos públicos de pesquisa para resolver problemas concretos e a ciência e a tecnologia passaram a fazer parte da vida do cidadão e do meio político.

Mas, perguntamos: Como garantir o prestígio público que se conseguiu nesse momento da pandemia da COVID-19?

A “valorização da ciência” e o reconhecimento do valor dos cientistas é, ainda, muito fragil e, em pouco tempo, podemos voltar ao modo da “ignorância científica”.

Reflitamos sobre o que deve pensar a sociedade sobre nós e sobre nossas instituições: qual é o valor das universidades e dos Institutos Públicos de Pesquisa se, mesmo tendo os melhores, a vida da população só piora e não se promove a resiliência para os grandes efeitos da relação homem e natureza?

Pois bem...

Teremos que buscar legitimidade junto à sociedade para além dos muros de nossas instituições, investindo em uma relação dialógica Institutos – Sociedade, prestando contas de nosso trabalho, com transparência e comunicação adequada.

Lembrando, também, que a sociedade não é uma massa amorfa: é composta por segmentos diferentes, com interesses específicos e que têm que nos ajudar nessa reflexão.

E para isso precisamos retomar o debate sobre as métricas e os indicadores que não poderão mais ser, unicamente, os tradicionais. Quando coletamos dados, o fazemos para um determinado fim.

No caso do IPT, faz tempo que falta refletirmos sobre qual a linguagem adequada para nos comunicarmos com o Governo do Estado de São Paulo, com o Legislativo paulista, com o Ministério Público de São Paulo, com a sociedade civil organizada e com a população em geral.

Métricas e indicadores devem dar voz à missão de nossas instituições.

Para tal, precisamos buscar:

  • • Indicadores de Missão da Instituição (são indicadores de longo prazo – 10 a 20 anos – com foco na Agenda 2030 e seus 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e suas 169 metas e na missão estatutária do IPT);
  • • Indicadores de Impacto (indicadores de médio prazo – 10 anos –com foco no Plano Plurianual Estratégico do Governo do Estado de São Paulo e no diagnóstico dos desafios da sociedade);
  • • Indicadores de Desempenho (indicadores de curto prazo – 4 anos – com foco nas prioridades de governo e na dotação orçamentária);
  • • Indicadores que deem conta da visão multidisciplinar dos trabalhos das instituições de pesquisa; e
  • • Indicadores que deem conta dos interesses específicos dos diferentes segmentos da sociedade que demandam nossos trabalhos: setor produtivo, sociedade civil organizada, TCE, MPSP, Legislativo dentre outros (articulando parcerias com esses segmentos para propor essas métricas e indicadores).

Felizmente, muitos grupos de pesquisadores, pelo mundo afora, estão também preocupados com esse tema produzindo documentos importantes a exemplo da Declaração de DORA, do Manifesto de LEIDEN, do debate sobre “ciência aberta”, colaboração distribuída, repositórios de pré-print dentre outros.

Penso que está mais do que na hora de retomarmos essa reflexão e debate!

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Desinvestimento em laboratórios públicos dificulta ações contra a covid-19

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O histórico subfinanciamento da saúde, agravado com os primeiros impactos da Emenda Constitucional (EC) 95, afeta também os laboratórios públicos brasileiros e suas ações contra a covid-19. Além de reduzir investimentos, em julho de 2019 o Ministério da Saúde rompeu Parcerias de Desenvolvimento Produtivo (PDPs) com sete laboratórios públicos nacionais, suspendendo a produção de medicamentos e vacina. Na época, a Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Oficiais do Brasil (Alfob) previu a perda anual de, pelo menos, R$ 1 bilhão para o setor. E já apontava os riscos de desabastecimento.

Os efeitos do desinvestimento tornaram-se mais visíveis com a pandemia, que provocou aumento importante da demanda. Esses laboratórios têm uma combinação de técnicas inovadoras de biotecnologia para formular uma nova vacina contra a covid-19. Além disso, a Bio-Manguinhos, pro exemplo, também produz álcool gel e álcool etílico 70%, protetores faciais e máscaras cirúrgicas, manutenção de respiradores e está desenvolvendo kits de diagnóstico molecular para o novo coronavírus. Ainda assim, eles não conseguem suprir a demanda.

O Brasil tornou-se dependente de outros laboratórios e indústrias de insumos e equipamentos. E com a concorrência de vários países pela compra desses insumos, há menor oferta. O resultado é o aumento de mortes especialmente pela falta de equipamentos, remédios e insumos. O país tem mais de 1,3 milhão de infectados e mais de 57 mil vidas perdidas.

Soberania

“Não podemos ficar dependentes do mercado internacional e vendo nossa população sofrer”, afirmou o integrante do Conselho Nacional de Saúde (CNS) e coordenador do Movimento de Reintegração de Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), Artur Custódio. “A rede de laboratórios oficiais tem de servir aos interesses do SUS. Principalmente naqueles campos em que o lucro é menor e não há interesse da indústria, mas que é fundamental para a população e, estrategicamente, para o Brasil, em questão de soberania nacional.”