Notícias | Reportagem do SINTPq marca os 42 anos do MST ao mostrar o cotidiano, a luta e as parcerias do Acampamento Marielle Vive

Reportagem do SINTPq marca os 42 anos do MST ao mostrar o cotidiano, a luta e as parcerias do Acampamento Marielle Vive

No aniversário do movimento, reportagem destaca a parceria sindical, a organização popular e o cotidiano de luta das famílias em Valinhos.

22/01/2026

marielle_3

Foto: SINTPq

 

No dia em que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra completa 42 anos de história, o Sindicato dos Trabalhadores em Pesquisa, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo (SINTPq) reafirma seu compromisso com a luta pela terra, pela reforma agrária popular e pela organização coletiva da classe trabalhadora, a partir da relação construída com o Acampamento Marielle Vive, localizado em Valinhos, na Região Metropolitana de Campinas. Criado em abril de 2018, o acampamento é hoje um território de resistência, produção de alimentos, educação popular e proteção comunitária diante de um cenário permanente de violência e criminalização.

A relação entre o sindicato e o acampamento remonta aos primeiros dias da ocupação. Segundo o presidente do SINTPq, José Paulo Porsani, o apoio foi imediato e se deu de forma concreta. “Desde o começo, a relação do sindicato com o acampamento foi muito intensa. Quando a ocupação aconteceu, em um final de semana, a CUT Campinas articulou os sindicatos para garantir apoio. O SINTPq ajudou com ônibus, com infraestrutura, com água, com doação de mudas para a horta e com aquilo que era mais urgente naquele momento”, afirmou.

Porsani destaca que a parceria também cumpre um papel político junto à categoria. “Sempre que pedimos apoio, a categoria responde, mas é nosso papel também enfrentar o preconceito em relação às ocupações. O MST tem muito a ensinar aos movimentos sindicais sobre organização da luta. É uma referência fundamental”, disse.

 

Organização coletiva e memória da ocupação

Uma das coordenadoras do acampamento, Luciana Oliveira, contextualizou o processo de ocupação e a estrutura construída ao longo de quase oito anos. “A ocupação aconteceu no dia 14 de abril de 2018. Chegamos a ter mais de 3 mil pessoas aqui, mais de 1.500 famílias, ocupando uma área totalmente improdutiva. Muitas das estruturas que usamos hoje, como a saúde, a cozinha comunitária e o almoxarifado, funcionam em prédios que já existiam da antiga granja”, explicou.

Luciana ressaltou que o acampamento carrega também a memória de seus mártires. A escola popular do território leva o nome de Luís Ferreira, trabalhador assassinado durante uma manifestação pacífica por água. “A escola leva o nome do nosso companheiro Luís Ferreira, que foi brutalmente assassinado aqui na frente. É um espaço de formação, mas também de memória e luta”, afirmou.

Luís Ferreira, presente

A história do acampamento é atravessada pela memória de Luís Ferreira da Costa, trabalhador de 72 anos, assassinado em julho 2019 durante uma manifestação pacífica por água. “Tudo tem a mão dele aqui”, relatam os moradores. Pedreiro por toda a vida, Luís ajudou a erguer parte das estruturas do acampamento e sonhava em voltar a viver na roça. Sua memória segue presente na escola popular e no cotidiano do território.

 

marielle_1

 

Educação popular, infância e EJA

A educação é um dos eixos centrais do Marielle Vive. A escola popular Luiz Ferreira abriga atividades com crianças e jovens, além da Educação de Jovens e Adultos. A educadora Cícera Bezerra destacou o impacto do trabalho de alfabetização. “Já tivemos quatro turmas de EJA desde 2019. A alfabetização muda a vida das pessoas. Tivemos companheiros que aprenderam a ler aqui dentro do acampamento, depois de uma vida inteira ouvindo ‘não’”, relatou.

A coordenadora das atividades infantis, Diene da Silva, explicou que o trabalho com as crianças vai além do cuidado. “A gente ensina desde cedo por que estamos aqui, o que é ocupar a terra, o que é produzir alimento saudável. As crianças participam da horta, das atividades culturais e crescem entendendo o sentido coletivo da luta”, afirmou.

Diene acrescentou que garantir o acesso das crianças à escola pública fora do acampamento também foi fruto de muita luta. “No início não havia vaga, tivemos que acionar conselho tutelar, secretaria de educação e até o Ministério Público. Hoje, as crianças estão matriculadas, com transporte garantido. Nada veio sem luta”, disse.

 

cicera_alves

 

Segurança comunitária diante da violência

A questão da segurança é uma preocupação permanente no acampamento. Luciana relatou episódios recentes de ataques armados. “Estamos em Valinhos, uma cidade que não gosta do MST. Já tivemos tiros disparados para dentro do acampamento, inclusive durante o dia. Por isso, temos monitoramento 24 horas, para garantir o mínimo, que é a proteção das famílias”, afirmou.

André Douglas Soares, integrante da equipe de segurança, explicou como funciona a organização interna. “A gente nunca deixa o acampamento desguarnecido. A segurança existe principalmente por causa das famílias e das crianças. Temos protocolo, controle de entrada, identificação. Quando acontece algum ataque, reforçamos a vigilância e acionamos outros assentamentos, se necessário”, relatou.

Ele detalhou que o sistema é organizado por núcleos de base. “Temos um grupo da segurança geral e seguranças em cada um dos 15 núcleos. Só entra quem é identificado. A gente precisa cuidar da vida de quem mora aqui”, reforçou.

 

Produção de alimentos e trabalho coletivo

A produção agrícola é outro pilar do acampamento. Sueli Moreira, responsável pela Horta Mandala, destacou o caráter coletivo da produção. O espaço reúne hortaliças, frutas e plantas nativas, com parte da produção destinada às famílias e outra às doações na cidade de Valinhos. “Mesmo sem reconhecimento, a gente faz nossa parte, mostrando que o MST produz alimento saudável”, afirmou Sueli, ao comentar o trabalho coordenado por Sueli.

Marta Regina, do Coletivo de Mulheres, reforça que o acampamento se organiza por setores, envolvendo saúde, gênero, produção, cultura, esporte, comunicação e infraestrutura, com participação direta das famílias.

Para o SINTPq, celebrar os 42 anos do MST é reafirmar que a organização coletiva, a solidariedade de classe e a educação popular seguem sendo ferramentas centrais para enfrentar as desigualdades, defender a vida e construir um projeto de sociedade justo para o campo e a cidade.