SINTPq destaca programas do CNPEM como instrumento de democratização da ciência e enfrentamento às desigualdades regionais
Sindicato avalia que iniciativas de formação e inclusão ampliam o acesso da classe trabalhadora e de territórios historicamente excluídos à ciência de ponta no Brasil.
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Participantes da Escola Sirius para Professores do Ensino Médio (ESPEM) durante atividade. Foto: Divulgação / CNPEM
O Sindicato dos Trabalhadores em Pesquisa, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo (SINTPq) avalia que os programas de formação e inclusão iniciados em 2026 pelo Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) representam um avanço concreto na democratização da ciência brasileira e no enfrentamento das desigualdades regionais e sociais que historicamente marcam o sistema nacional de ciência e tecnologia. A análise do sindicato tem como base a experiência direta de trabalhadores da instituição e a contribuição do diretor do SINTPq e pesquisador do Centro, Antonio Neto.
O CNPEM iniciou o ano com três programas estratégicos voltados à formação de novos talentos e à ampliação da diversidade no ambiente científico: a Escola Sirius para Professores do Ensino Médio (ESPEM), o Programa Bolsa de Verão (PBV) e a participação no programa nacional Futuras Cientistas. As iniciativas dialogam com a política institucional do Centro de aproximar a sociedade das pesquisas de fronteira desenvolvidas em áreas como saúde, energia, materiais renováveis e sustentabilidade.
Para o SINTPq, essas ações não podem ser analisadas apenas como programas educacionais isolados, mas como parte de um processo mais amplo de reorganização do sistema científico nacional. Segundo Antonio Neto, iniciativas como o PBV e a ESPEM expressam uma tendência clara de descentralização da ciência de ponta, rompendo com a concentração histórica no eixo Rio-São Paulo e criando redes de cooperação entre diferentes regiões do país.
Na avaliação do diretor do sindicato, os bolsistas de verão passam a atuar como pontos de contato entre suas universidades de origem e o CNPEM, enquanto os professores do Ensino Médio formados pela ESPEM contribuem para a construção de uma nova geração de cientistas, mais diversa regional e culturalmente, que no futuro poderá utilizar as instalações abertas do Sirius, colaborar com grupos de pesquisa do Centro e ocupar espaços hoje restritos a poucos.
Antonio Neto destaca que esse movimento não ocorre de forma isolada. Ele cita exemplos de instituições de referência nacional e internacional que seguem caminho semelhante, como o Instituto de Matemática Pura e Aplicada, que constrói um campus em Teresina, no Piauí, voltado à graduação em matemática, e o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, que implanta um novo campus em Fortaleza, no Ceará, com cursos inéditos na área de energias renováveis e sistemas.
Para o dirigente sindical, os dados educacionais do Nordeste reforçam que esse processo não se trata de concessão ou benevolência do Sudeste, mas do reconhecimento de uma realidade concreta. A região concentrou quase um quarto das medalhas da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas nos últimos cinco anos, apresenta elevado desempenho no Enem e responde por parcela significativa dos aprovados no ITA.
Antonio Neto também relaciona esse debate a manifestações recentes na cultura brasileira, como o filme “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, no qual um pesquisador nordestino é subestimado e tem seu financiamento retirado por preconceito regional. Para ele, iniciativas como as desenvolvidas pelo CNPEM indicam que o país começa a virar essa página, reconhecendo e promovendo talentos historicamente marginalizados no sistema de ciência, tecnologia e inovação.
Pesquisas
Além dos programas educacionais, o sindicato chama atenção para a implantação do complexo Orion, voltado à pesquisa em patógenos, que abrigará o primeiro laboratório de biossegurança máxima NB4 da América Latina e o primeiro do mundo conectado a uma fonte de luz síncrotron, o Sirius. Para o SINTPq, a combinação entre infraestrutura de ponta e políticas de formação inclusivas reforça o papel estratégico do CNPEM para o desenvolvimento científico soberano do país.
No campo da formação de professores, a oitava edição da Escola Sirius para Professores do Ensino Médio foi realizada entre 12 e 17 de janeiro de 2026, reunindo educadores de Física, Química e Biologia das redes pública e privada de diferentes regiões do Brasil. O programa contou com aulas teóricas e práticas ministradas por pesquisadores do CNPEM, além de visitas aos laboratórios nacionais e contato direto com áreas como luz síncrotron, biociências, nanotecnologia, engenharia e biorrenováveis.
A edição marcou a participação do primeiro professor indígena no programa, Severino do Ramo Fernandes da Silva Neto, da Baía da Traição, na Paraíba. Atuando em escola da comunidade indígena potiguara, ele relatou a importância de articular o ensino de Física com práticas culturais tradicionais e destacou o impacto simbólico e pedagógico de levar a experiência do CNPEM para seus alunos.
Já o Programa Bolsa de Verão chegou à 33ª edição em 2026 como uma das principais portas de entrada de estudantes universitários no ambiente de pesquisa do Centro. Com mais de mil inscritos, o programa selecionou estudantes de diversas regiões do Brasil e de países da América Latina, que desenvolvem projetos interdisciplinares nos quatro laboratórios nacionais do CNPEM.
O Centro também mantém participação no programa Futuras Cientistas, voltado a incentivar meninas do Ensino Médio público a seguirem carreiras nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Para o SINTPq, iniciativas como essa têm impacto direto na ampliação do acesso ao ensino superior e na redução das desigualdades de gênero no sistema científico.
Ao destacar essas ações, o SINTPq reafirma sua defesa de uma política científica pública, inclusiva e comprometida com a redução das desigualdades sociais e regionais. Para o sindicato, a valorização dos trabalhadores e trabalhadoras da ciência deve caminhar junto com a ampliação do acesso da juventude e dos territórios populares à produção do conhecimento, fortalecendo o papel social da ciência no Brasil.











