A soberania digital e as implicações no uso de IA para as eleições 2026
Os avanços da inteligência artificial têm mudado rapidamente a comunicação política, em um ritmo maior do que o das leis.
Por Lara Nave

Em outubro de 2026, o Brasil voltará às urnas em um cenário no qual a disputa pelo voto ocorre, cada vez mais, nas redes sociais, onde os algoritmos se tornaram peças centrais das campanhas. Na ocasião, os eleitores escolherão o(a) presidente(a) da República, o(a) governador(a), deputados(as) federais e estaduais e dois terços dos integrantes do Senado Federal.
Para o Sindicato dos Trabalhadores em Pesquisa, Ciência e Tecnologia no Estado de São Paulo (SINTPq), a defesa da democracia passa necessariamente pela defesa da soberania digital. Isso significa garantir ao Brasil autonomia para gerir seus dados e regular a inteligência artificial.
A disputa eleitoral já não depende apenas de discursos, programas de governo e propaganda tradicional. Ela passa, cada vez mais, por algoritmos, bancos de dados e sistemas automatizados de recomendação. A campanha política migrou para o marketing digital.
Segundo levantamento do Projeto Brief, realizado em abril de 2026, as redes sociais já são a principal fonte de informação para 76,9% dos entrevistados, superando a televisão e o YouTube. A pesquisa também mostra que 62,9% afirmam considerar o uso de ferramentas de inteligência artificial para buscar informações sobre candidatos durante as eleições.
Essa mudança ocorre em um ambiente dominado por plataformas privadas, cujo modelo de negócios utiliza nossos dados para treinar sistemas de inteligência artificial e vender publicidade. Ferramentas como o Gerenciador de Anúncios da Meta, empresa responsável pelo Facebook, Instagram e WhatsApp, permitem segmentar audiências, testar diferentes mensagens e ampliar o alcance de conteúdos direcionados a perfis específicos de eleitores.
Nesse cenário, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) atualizou as regras para o uso de IA na propaganda eleitoral. Entre as medidas, está a obrigatoriedade de informar, de forma clara e acessível, quando imagens, vídeos ou áudios tiverem sido produzidos ou alterados por IA.
O tribunal também proibiu a publicação, republicação e impulsionamento pago de novos conteúdos sintéticos produzidos por inteligência artificial nas 72 horas anteriores à votação e nas 24 horas seguintes ao encerramento do pleito.
Embora o sindicato considere essas medidas importantes, elas não encerram o problema. O avanço tecnológico ocorre em um ritmo mais acelerado do que o da legislação. Um caso que ilustra essa questão é o Projeto de Lei nº 2.630/2020, conhecido como PL das Fake News, que permanece em tramitação desde 2020.
O caso traz uma questão central: as informações que circulam cada vez mais em ambientes controlados por plataformas privadas são apenas canais neutros de comunicação? Os algoritmos sugerem que não. Ao gerenciar os conteúdos que serão recomendados e monetizar a circulação desses conteúdos por meio da publicidade digital, as plataformas passaram a exercer um papel ativo na distribuição da informação.
Como exemplo, uma reportagem da BBC Brasil, publicada em março deste ano, reuniu relatos de ex-funcionários de grandes empresas de tecnologia que afirmam que algoritmos privilegiavam conteúdos capazes de gerar indignação e engajamento, mesmo quando havia risco de disseminação de desinformação.
O uso profissional dessas ferramentas já integra estratégias eleitorais, com o avanço das campanhas digitais na publicidade política. O Projeto Brief identificou 890 anúncios sobre o Senado na Biblioteca de Anúncios da Meta em janeiro de 2026. Segundo o estudo, a maior parte dos recursos aplicados veio de atores ligados à direita e à extrema direita, enquanto o campo progressista teve participação menor. Vale ressaltar que esses anúncios são posts que receberam investimento financeiro para ampliar o alcance nas redes da Meta.
Segundo a análise, a direita partidária domina a disputa política articulada nas redes e, neste ano, tem como principal alvo a disputa pelo Senado. A pesquisa também revelou uma uniformidade nas mensagens publicadas por parlamentares, influenciadores, podcasts e outros perfis, sugerindo uma estratégia coordenada de comunicação. Embora as mensagens pareçam independentes, elas compartilham narrativas semelhantes e circulam por diferentes redes, como Instagram e Facebook.
Ainda em 2025, representantes da Meta e do Google participaram do 2º Seminário Nacional de Comunicação do Partido Liberal (PL), realizado em Fortaleza. De acordo com a reportagem do Intercept Brasil, o evento reuniu políticos, assessores, influenciadores e ativistas para oficinas sobre inteligência artificial aplicada à comunicação política.
Durante o seminário, Felipe Ventura, business education trainer da Meta, apresentou recursos da Meta AI e orientou os participantes sobre como gerar imagens para “impressionar seus seguidores” e até transformar as imagens em vídeos, tudo com simples prompts.
Na ocasião, o ex-presidente Jair Bolsonaro afirmou aos influenciadores presentes que "o trabalho de cada um de vocês é a chama, é a certeza de que a vitória um dia virá". Segundo a reportagem, ele também declarou que as empresas de tecnologia estavam "do lado certo".
O uso da inteligência artificial já produziu episódios durante o atual ciclo eleitoral. Em abril de 2026, o Partido dos Trabalhadores (PT) notificou extrajudicialmente a Meta e o TikTok e acionou o TSE após a circulação de vídeos produzidos por IA que mostravam mulheres usando camisetas do partido sendo agredidas em falsas cenas de "exorcismo". O partido classificou o caso como violência política e desinformação.
A Agência Lupa esclareceu que alguns desses vídeos circulavam sem qualquer aviso de que haviam sido gerados por inteligência artificial. Em muitos casos, usuários acreditaram que as imagens eram verdadeiras.
Em outra pesquisa do Projeto Brief, realizada pela plataforma Swayable entre 25 e 29 de abril de 2026 com 2.483 participantes, reforça esse desafio. Apenas 33% identificaram corretamente que o vídeo era falso, enquanto 21,7% disseram não saber responder. Na prática, mais da metade dos entrevistados teve dificuldade para distinguir um conteúdo sintético de um registro real.
Para o Sindicato, o problema vai além da criação de imagens falsas. A inteligência artificial também permite identificar quais grupos têm maior probabilidade de acreditar em determinadas mensagens. Dados de navegação, consumo e interação nas redes alimentam sistemas capazes de construir perfis comportamentais detalhados e direcionar campanhas.
Essa estratégia ganhou notoriedade internacional durante a eleição presidencial norte-americana de 2016, marcada pelo caso Cambridge Analytica e pelo uso de Big Data para segmentação política. Em 2026, porém, ferramentas antes restritas a grandes estruturas tecnológicas tornaram-se mais acessíveis, rápidas e baratas.
Para o pesquisador Marcelo Lucca, autor de tese de doutorado defendida em 2025 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a desinformação também deve ser entendida como um problema econômico. Ele explica que o modelo de negócios das plataformas recompensa conteúdos que geram medo, conflito, indignação e engajamento, aumentando o tempo de permanência dos usuários e, consequentemente, a receita com publicidade.
No Congresso Nacional, o principal debate para regulamentação da IA no Brasil ocorre em torno do Projeto de Lei nº 2.338/2023, conhecido como Marco Legal da Inteligência Artificial. O texto já foi aprovado pelo Senado e aguarda análise da Câmara dos Deputados.
Para o SINTPq, a inteligência artificial não é apenas uma tecnologia de mercado, mas uma infraestrutura de poder. A defesa da democracia passa necessariamente pela defesa da soberania digital. Isso significa garantir que o Brasil tenha capacidade própria de produzir conhecimento, proteger dados pessoais e auditar sistemas automatizados.
Soberania digital não significa isolamento tecnológico, significa autonomia para cooperar sem dependência, regular e inovar sem entregar ao setor privado estrangeiro o controle sobre nossos dados. Por isso, discutir as eleições de forma democrática também é discutir soberania digital.
A democracia exige mais do que o voto. Exige acesso plural à informação, transparência sobre quem financia as campanhas digitais e capacidade do poder público de fiscalizar tecnologias que ainda são controladas por poucos. Além disso, verificar informações é essencial para que não fiquemos reféns da entrega algorítmica.
Veja também
SINTPq inicia inscrições para o 1º Encontro de Base
14/07/2026Fortalecer a base, organizar a categoria e debater o futuro do país! Neste ano, tão importante ...
SINTPq convoca trabalhadores da CLÍNICA DO LEITE para assembleia de contraproposta
13/07/2026O SINTPq convoca os trabalhadores da CLÍNICA DO LEITE para assembleia de avaliação e deliberação ...
SINTPq orienta categoria sobre polêmica envolvendo escritório de advocacia
06/07/2026Em reportagem publicada pela Record no domingo, 5 de julho, houve uma denúncia envolvendo o ...














