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SINTPq relembra greves históricas em Campinas e reforça que a luta dos trabalhadores enfrentou a ditadura

Experiências de 1983 e 1985 em Campinas mostram que organização e unidade foram decisivas para garantir direitos.

02/04/2026

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Foto: Arquivo / Sindpetro Unificado-SP

Neste 31 de março, data que marca os 62 anos do Golpe de 1964, o Sindicato dos Trabalhadores em Pesquisa, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo (SINTPq) reafirma o compromisso com a memória, a verdade e a luta da classe trabalhadora, destacando o papel decisivo das mobilizações sindicais que enfrentaram o regime e contribuíram para a redemocratização do país. Em Campinas e região, duas greves se tornaram símbolos desse processo: a dos petroleiros, em 1983, e a dos bancários, em 1985. A greve dos petroleiros da Refinaria de Paulínia (Replan), em julho de 1983, foi um dos primeiros grandes movimentos assumidamente políticos no período final da ditadura. Em meio à repressão e à ameaça de demissões, trabalhadores da Petrobrás cruzaram os braços no dia 6 de julho, desencadeando um processo que levaria à primeira greve geral após 1964 e abriria caminho para a criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Foram seis dias de paralisação marcados por tensão, perseguições e resistência coletiva.

Em Campinas, o Centro de Convivência Cultural tornou-se um dos principais pontos de organização do movimento. Assembleias reuniam centenas de trabalhadores, muitos dos quais permaneciam no local, inclusive durante a noite, diante do risco de repressão. Ao final da greve, 152 petroleiros foram demitidos, e houve intervenção nos sindicatos, evidenciando o caráter autoritário do regime mesmo em seus momentos finais. Ainda assim, o movimento deixou marcas profundas na organização da classe trabalhadora. A solidariedade construída naquele período fortaleceu a luta pela readmissão dos demitidos e contribuiu para conquistas importantes, como a revogação de medidas autoritárias e a defesa do monopólio estatal do petróleo.

Décadas depois, trabalhadores perseguidos foram anistiados, consolidando o reconhecimento histórico da legitimidade da mobilização.

A diretora cassada em 1983 e liderança histórica da categoria, Wanda Conti, relembra o significado daquele momento em depoimento ao portal do Sindipetro Unificado-SP. “A greve de 83 foi o grande marco da nossa vida sindical, foi o grande embate que nós tivemos. Fui uma das demitidas e só voltei quando conseguimos a readmissão de todos. Nem o governo, nem a direção da Petrobrás queriam que voltássemos. Mas nós lutamos muito para que todos voltassem”.

 

A luta dos bancários

Dois anos depois, Campinas voltaria ao centro da história do movimento sindical com a greve nacional dos bancários de 1985. O processo teve início em uma assembleia histórica no Ginásio do Guarani, que reuniu mais de 10 mil trabalhadores de todo o país, representando mais de uma centena de sindicatos. A decisão pela paralisação nacional, aprovada por unanimidade, marcou a retomada da capacidade de mobilização da categoria em escala nacional.

Nos dias 11 e 12 de setembro, bancos de todo o Brasil foram paralisados, e a categoria conquistou reajuste salarial e avanços nas condições de trabalho. Mais do que ganhos imediatos, o movimento consolidou a unidade nacional dos bancários e abriu caminho para a construção da Convenção Coletiva de Trabalho, referência para toda a classe trabalhadora brasileira.

O então dirigente sindical Davi Zaia relembra, em registro do Sindicato dos Bancários de Campinas, o sentido político daquela mobilização. “Em 1985, nossa luta estava ligada à democracia. Reunimos mais de 10 mil bancários em Campinas, fizemos uma greve nacional e mostramos que a categoria unida podia conquistar direitos concretos”.

Para o SINTPq, resgatar essas experiências é reafirmar que os direitos trabalhistas, a organização sindical e a própria democracia foram construídas a partir da luta concreta da classe trabalhadora, mesmo sob repressão. As mobilizações de 1983 e 1985, gestadas em Campinas, ultrapassaram os limites regionais e influenciaram diretamente a reorganização do movimento sindical em todo o país, contribuindo para o processo que culminaria na Assembleia Nacional Constituinte de 1988.

A memória dessas greves segue atual ao lembrar que nenhum direito foi concedido, mas conquistado, e que a organização coletiva permanece como instrumento central na defesa da ciência, da tecnologia e do trabalho no Brasil.